Quando pendurou as chuteiras em 2022, Marcos Tavares podia se gabar de um currículo que extrapola as quatro linhas: 15 temporadas com a camisa 9 do NK Maribor, 211 gols em 593 jogos e o status de maior artilheiro da história da PrvaLiga — a Série A eslovena. O que poucos sabiam era que aquela mesma chuteira já tinha virado púlpito muito antes do último apito final.
Hoje, aos 40 anos, o ex-Seleção Brasileira sub-20 colhe frutos de uma semente que começou humilde: um pequeno grupo caseiro em 2008, quando desembarcou na cidade de Maribor com a esposa, Letícia. “Começou com um único brasileiro na minha cozinha”, relembra. O que era célula virou a International Christian Church – The Way, comunidade que, no último mês, celebrou o batismo de 10 novos convertidos — número considerado milagre em um país onde, segundo o Operation World, apenas 0,1 % se declara evangélico.
Do gramado ao batistério
A estratégia de Tavares foi simples — e bíblica. A cada gol, o atacante levantava a camiseta para revelar a frase “Isus je pot” (Jesus é o caminho) em esloveno. Em 2014, quando marcou contra o Celtic e levou o Maribor à fase de grupos da Champions, o país inteiro leu o versículo.
O testemunho ficou irresistível: jovens curiosos apareciam na igreja atraídos pelo ídolo e saíam falando de Cristo. “Eles podem vir para ver o jogador Tavares, mas ficam por causa de Jesus”, diz ele, citando a dificuldade local de enxergar Deus como Pai — trauma herdado das guerras dos Bálcãs e de décadas de ateísmo de Estado.
Desafios de um solo duro
Apesar da abertura crescente, o preconceito ainda existe. “Tudo que não é católico romano, eles chamam de seita”, lamenta o pastor-jogador. O jeito foi unir pão físico e pão espiritual: almoços comunitários após o culto, visitas a dependentes químicos e tradução simultânea em inglês, esloveno e português.
Os números falam: mais de 100 batismos em 17 anos. Pequeno para a realidade brasileira, gigante para a Eslovênia, onde a maior parte da juventude nunca ouviu o nome de Jesus fora das aulas de história.
Próximos gols
A meta agora é plantar novas igrejas em Ljubljana e Celje e formar líderes eslovenos, diminuindo a dependência de missionários estrangeiros. “Se eu fosse só pastor, ninguém ouviria. Deus usou o futebol como chave”, resume.
De camisa roxa ou de terno, Marcos Tavares continua artilheiro — só mudou o campo. E cada mergulho nas águas do batismo vale muito mais que um gol na Champions.



