A cena política de Ohio ganhou contornos ainda mais controversos na última semana. No dia 19 de junho, dois deputados estaduais republicanos — Levi Dean e Johnathan Newman — apresentaram um projeto de lei que busca criminalizar todos os abortos realizados no estado, equiparando-os a homicídios, mesmo nos estágios iniciais da gestação. Batizado de Lei de Proteção Igualitária Pré-natal de Ohio, o texto também pretende revogar a emenda constitucional aprovada em 2023, que assegura o acesso a tratamento médico reprodutivo, incluindo o aborto.
Caso aprovado, o projeto não apenas proibiria o aborto, como também colocaria em risco procedimentos como fertilização in vitro e o uso de contraceptivos que impeçam a implantação do embrião. Na justificativa, os autores afirmam que o Estado deve aplicar “as mesmas leis criminais e civis que protegem a vida de pessoas nascidas” também aos não nascidos.
Quando “lei de Deus” colide com a lei do povo
A proposta foi imediatamente celebrada por grupos como o End Abortion Ohio, que citou Salmo 82:3 para justificar a medida e classificou a emenda de 2023 como “nula e sem efeito”. Segundo o grupo, a prioridade deve ser obedecer a Deus, não às leis humanas. O tom religioso do discurso mostra mais uma vez como parte do movimento pró-vida norte-americano mistura fé com legislação ao propor políticas públicas baseadas em convicções bíblicas.
No entanto, nem todos os grupos conservadores apoiaram a iniciativa. O Centro para a Virtude Cristã (CCV), uma das maiores organizações pró-vida do estado, disse que não endossa o projeto. O mesmo fez o Family Research Council, através de seu diretor David Closson, que admitiu:
“A triste realidade é que a maioria dos nossos concidadãos é a favor do aborto. Como pró-vida, somos uma minoria política.”
Realidade jurídica e choque de agendas
Apesar do apoio fervoroso de alguns setores religiosos, o projeto entra em conflito direto com a vontade popular expressa nas urnas. Em 2023, os eleitores de Ohio aprovaram por referendo uma emenda constitucional garantindo o direito ao aborto, um movimento que seguiu a revogação do precedente federal Roe v. Wade em 2022.
Juristas apontam que, caso a nova proposta avance, a medida deverá enfrentar uma batalha jurídica acirrada, já que vai contra uma norma constitucional estadual recém-aprovada. Ainda assim, projetos semelhantes foram apresentados em oito outros estados norte-americanos, embora nenhum tenha sido convertido em lei até o momento.
Termômetro da opinião pública
A tensão jurídica e ideológica acontece em um momento de mudança significativa na opinião pública americana. Uma pesquisa da Gallup, divulgada em junho de 2025, mostra que 61% das mulheres norte-americanas se identificam como pró-escolha, contra 41% dos homens — o maior descompasso de gênero registrado pela instituição em 30 anos.
Isso evidencia que, embora a pressão por legislações cada vez mais restritivas ao aborto venha de setores religiosos organizados, a maioria da sociedade caminha em direção à preservação do direito de escolha, principalmente entre mulheres.
Entre o altar e o tribunal
O projeto apresentado em Ohio escancara a dificuldade dos EUA em equilibrar princípios religiosos com direitos civis, num momento em que a polarização ideológica parece maior do que nunca. Mais do que um debate sobre saúde ou bioética, a proposta de Dean e Newman representa uma tentativa explícita de legislar a moral cristã no âmbito público.
Nos próximos meses, o destino da Lei de Proteção Igualitária Pré-natal será acompanhado de perto não apenas por religiosos e ativistas, mas por toda a sociedade americana — que, mais uma vez, se vê diante do dilema entre fé, liberdade individual e democracia.



