Dados do Censo 2022 mostram que mulheres evangélicas têm mais filhos que outros grupos religiosos no Brasil.

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Imagem Canva Pro

Os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última sexta-feira (27), lançam luz sobre uma faceta pouco discutida da relação entre fé e maternidade: a taxa de fecundidade das mulheres brasileiras conforme a religião que professam. E os resultados não passaram despercebidos.

Segundo o Censo Demográfico de 2022, as mulheres evangélicas apresentam a maior média de filhos por mulher no Brasil, com 1,7 filho. Já as espíritas registraram a menor taxa, com 1,0 filho por mulher. Católicas e mulheres sem religião aparecem empatadas, com 1,5 filho, enquanto umbandistas e candomblecistas apresentam 1,2 filho em média. Entre aquelas de “outras religiões” não especificadas, a taxa é de 1,4.

Esses números, embora representem apenas um recorte demográfico, ajudam a entender dinâmicas mais profundas de como valores religiosos, culturais e sociais se entrelaçam na vida de milhões de brasileiras.

Espiritualidade e desejo de gerar vida

Luci Souza, de 56 anos, mãe de quatro filhos e ativa na Comunidade Evangélica de Cordovil (RJ), é um exemplo dessa intersecção entre fé e maternidade. Professora e diretora de escola, ela relata que sua escolha pela maternidade teve, sim, um componente espiritual.

“Está escrito na Bíblia: ‘Crescei e multiplicai-vos’. De certa forma, isso sempre despertou em mim um interesse pelo ato de ser mãe”, contou ao jornal O Globo. Apesar de afirmar que não teve filhos unicamente por influência religiosa, Luci reconhece que os valores cristãos a aproximaram do desejo de formar uma família numerosa.

Ela é mãe de Natanael, Yohanna, Ben-Hur e Maria Elisa — e afirma que, se pudesse, teria tido ainda mais filhos. “Gerar uma vida não é algo simples — é profundo, quase sobrenatural”, disse, ressaltando que o apoio da família, da comunidade e da fé foram fundamentais para equilibrar a rotina com o trabalho e os compromissos na igreja.

Maternidade mais cedo entre evangélicas; espíritas postergam

O IBGE também observou que as mulheres evangélicas tendem a ter filhos mais cedo. O pico de nascimentos entre esse grupo está na faixa dos 25 aos 29 anos — padrão semelhante ao de católicas e mulheres sem religião. Já entre as espíritas, os nascimentos se concentram entre os 30 e 34 anos, sugerindo uma maternidade mais tardia, possivelmente relacionada a fatores como escolaridade, renda e planejamento familiar.

É importante destacar que, embora os dados tragam uma correlação entre fé e número de filhos, os próprios pesquisadores do IBGE alertam: não é possível afirmar que a religião seja a única responsável pelas diferenças nas taxas de fecundidade. Outros fatores, como acesso à saúde, educação, renda e posição social, são igualmente determinantes.

Entre tradição e escolha

O dado mais relevante, no entanto, pode estar nas entrelinhas. A maternidade, quando atravessada pela religião, assume significados que vão além da biologia. Para muitas mulheres evangélicas, por exemplo, o desejo de gerar e cuidar está alinhado a uma missão espiritual. Já para espíritas, pode haver uma leitura mais individualizada da maternidade, mais conectada a ciclos de evolução pessoal e planejamento.

Em um país onde o debate sobre natalidade, direitos reprodutivos e políticas de apoio à maternidade ainda é marcado por desigualdades, entender essas nuances ajuda a construir políticas públicas mais eficazes — e respeitosas à diversidade de escolhas e crenças.

O que os dados mostram, afinal, é que o número de filhos pode ser um reflexo da fé, sim. Mas também é, cada vez mais, uma expressão de autonomia, consciência e contexto social.

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