Após quase quatro décadas marcadas pelo ateísmo estatal, Cuba vive um renascimento religioso que surpreende até os mais conservadores. Desde a década de 1990, com o fim do apoio soviético, o país começou a abrir espaço às religiões — e hoje, as igrejas evangélicas ganharam visibilidade e influência sem precedentes.
Até 1992, a Constituição de Cuba declarava o país um Estado ateu, proibindo religiosos de ocupar cargos públicos e marcando a educação com uma visão marxista-leninista. Contudo, já naquela época a religião nunca desapareceu das casas: muitos rezavam escondidos e escondiam Bíblias debaixo de capas discretas .
A virada começou com eventos simbólicos, como a visita de Jesse Jackson em 1984 e, especialmente, a histórica passagem do Papa João Paulo II em 1998, que abriu portas não só para os católicos, mas também para os protestantes. A nova Constituição de 2019 garantiu formalmente a liberdade religiosa, embora limitasse construções de templos.
Hoje, estimam-se em Cuba cerca de:
- 40 mil metodistas
- 100 mil batistas
- 120 mil membros das Assembleias de Deus
- aproximadamente 25 mil congregações evangélicas, segundo dados do Conselho de Igrejas de Cuba.
Essas igrejas não se limitaram a cultos: muitas criaram postos de saúde, ações de assistência comunitária e grupos de estudo bíblico, especialmente em áreas carentes — um papel antes exclusivo do Estado .
A ascensão evangélica extrapola os templos. Igrejas presbiterianas lideradas pelo Conselho de Igrejas de Cuba Brasile aumentaram sua atuação em espaço público, organizandos manifestações contra o casamento gay e participando de consultas populares sobre a Constituição, bloqueando mudanças no Artigo 68.
Apesar dos sinais positivos, a liberdade ainda é limitada. Novas igrejas enfrentam multas, demolições de espaços de culto domésticos e restrições na construção civil, além de vigilância estatal . Essas tensões se intensificaram após protestos de 2021, com crescimento em interrupções e prisões de líderes religiosos .
O fenômeno evangélico em Cuba não é apenas numérico: tornou-se força social, política e cultural em formação. A presença pública dos evangélicos, tanto em mobilizações quanto em debates legislativos, indica que o país está trilhando um caminho de pluralidade religiosa com impacto concreto. Mas o futuro ainda dependerá do confronto entre liberdade de crença e controle estatal — uma disputa que, segundo pesquisadores, deve seguir em curso nas próximas décadas.



