Uma decisão recente do Serviço de Receita Federal dos Estados Unidos (IRS) promete mexer com o equilíbrio entre fé e política no país. Pela nova interpretação divulgada na última semana, igrejas poderão manifestar apoio a candidatos políticos sem risco de perder sua isenção fiscal — um direito tributário garantido às instituições religiosas e organizações sem fins lucrativos.
A informação foi confirmada pela emissora CNBC, que apontou a mudança como um marco na aplicação da Emenda Johnson, norma criada em 1954 para impedir que igrejas e outras entidades isentas de impostos se envolvessem em campanhas eleitorais.
Pelo entendimento vigente até então, qualquer manifestação política explícita feita por uma instituição religiosa poderia resultar em sanções severas, inclusive a perda do status de isenção fiscal. Mas o novo posicionamento do IRS flexibiliza essa leitura.
Religião e política no mesmo púlpito
Segundo a Receita americana, manifestações feitas por líderes religiosos no contexto de cultos ou eventos internos, com base em ensinamentos de fé, não caracterizam mais “intervenção política” — desde que não se transformem em instrumentos de campanha tradicional. Ou seja, um pastor pode agora citar um candidato durante a pregação, declarar apoio ou mesmo criticar posições políticas, desde que isso seja feito de “boa-fé” e com base em convicções religiosas.
A medida pode ter efeitos imediatos nas eleições americanas, especialmente em estados com grande influência do eleitorado cristão conservador. Grupos como os evangélicos brancos, que já demonstraram engajamento político nas últimas eleições, podem agora ampliar ainda mais sua participação.
Uma faca de dois gumes
Embora a decisão seja celebrada por líderes religiosos que lutavam há décadas contra a Emenda Johnson, críticos alertam para o risco de politização extrema dos púlpitos. “A separação entre Igreja e Estado foi conquistada com muito custo. Essa abertura pode enfraquecer essa barreira e criar uma teocracia disfarçada”, alertou um especialista em direito constitucional à emissora NPR.
De todo modo, a flexibilização chega em um momento em que a relação entre fé e política nos EUA está mais tensa e centralizada do que nunca. Ao liberar o discurso político nos púlpitos, o IRS pode estar reescrevendo as regras de influência nas eleições americanas — e colocando a religião em um novo patamar de poder.



