Um estudo recém-publicado na Revista Mexicana de Opinión Pública lança luz sobre o perfil político e os hábitos de comunicação dos protestantes no Brasil — especialmente os evangélicos, hoje uma das maiores e mais influentes comunidades religiosas do país.
Segundo a pesquisa, que analisou dados da ABRAPEL, IPESPE e UFRJ, 52% dos evangélicos se declaram de direita, enquanto apenas 18% se identificam com a esquerda. Entre a população em geral, a divisão é mais equilibrada: 34% se dizem de direita e 28% de esquerda. O dado reforça o peso conservador do segmento evangélico na política nacional, especialmente em pleitos recentes.
Outro ponto que chama atenção é o uso intensivo do WhatsApp como espaço de mobilização. O levantamento mostra que 92% dos evangélicos participam de grupos religiosos na plataforma, número superior ao registrado entre católicos (71%) e espíritas (57%). Esses ambientes digitais não servem apenas para mensagens de fé, mas também se tornaram arenas de debate político e, em muitos casos, de circulação de informações falsas.
Durante as eleições de 2022, por exemplo, metade dos evangélicos acreditou em suspeitas de fraude eleitoral, contra 36% de outros grupos religiosos. Já a notícia falsa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fecharia igrejas foi considerada verdadeira por 31% dos entrevistados, mesmo que apenas 28% tenham declarado ter recebido a mensagem.
O estudo ainda aborda a relação entre teologia e engajamento político. Apesar de apenas 21% afirmarem conhecer a chamada “Teologia do Domínio”, 86% dizem acreditar em uma guerra espiritual entre forças do “bem” e do “mal” — conceito que muitas vezes se mistura ao debate eleitoral.
Pastores e lideranças evangélicas entrevistados apresentaram visões opostas. Para Marcos Soares Gonçalves, presidente do Conselho Nacional Cristão de Participação Política, a fé evangélica viveu uma transformação histórica. “No passado, política era vista como coisa do diabo. Esse afastamento abriu espaço para vertentes contrárias à nossa fé ocuparem o poder”, declarou. Já o pastor e cientista político Gustavo Knauer, da ADVEC Alphaville, rebateu a narrativa. Para ele, o discurso sobre fake news e radicalismo busca estigmatizar a participação evangélica na vida pública.
O levantamento, assinado por Silvana Krause, Helcimara Telles, Joscimar Souza Silva e João C. L. Camargos, conclui que a intersecção entre religião e política deve seguir moldando o futuro eleitoral do Brasil. Em outras palavras, qualquer candidato que ignore a força dos evangélicos corre o risco de perder um eleitorado decisivo nas urnas.



