Em um pronunciamento que ecoou no plenário da Câmara dos Deputados e repercutiu nas redes e nos bastidores da política, o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) admitiu nesta terça-feira (26/11) ter se equivocado em sua trajetória, criticou o radicalismo do bolsonarismo e declarou que prefere seguir “sozinho” a permanecer alinhado a um grupo com o qual não se identifica mais. A fala marca um afastamento público de um movimento com o qual ele já foi associado e reacende o debate sobre o que realmente representa a direita brasileira hoje.
No discurso, o parlamentar reconheceu que, no passado, apoiou com fervor o ex-presidente Jair Bolsonaro chegou a clamá-lo como “mito” e admite que hoje enxerga exageros: “Me arrependo quando gritei ‘mito’ num lugar onde só deveria se cultuar o Senhor”, disse. Ele classificou comportamentos antigos como fruto de “radicalismo” e confessou sentir vergonha de falar como se tudo se resolvesse “na bala e no tiro”. A declaração revela que, para ele, o fanatismo e a agitação política intolerante fizeram ruído onde deveria haver reflexão e fé.
Mas mais do que um mea culpa interno, o gesto politically-driven ganha contornos de tentativa de redefinição: Otoni afirmou que a culpa nunca foi de Bolsonaro “a culpa foi minha” o que representa uma sensação de responsabilidade individual, ainda que dissociada da liderança de outrora. Ele ressaltou que se considerava parte de uma causa que exaltava valores conservadores, mas agora reconhece que certas convicções foram distorcidas por extremos.
Além disso, o deputado comentou sobre temas sensíveis: sobre desigualdades sociais e raciais, admitiu que, “em vez de denunciar o pecado do racismo, preferi dizer que racismo não existe na minha nação”; e questionou no discurso a noção de meritocracia quando argumentada como solução para desigualdades estruturais: “como se filho de pobre pudesse concorrer com o do rico”.
O contexto da declaração é relevante: o pronunciamento ocorreu um dia após uma decisão judicial que agravou tensões no cenário político, tempo em que a polarização e o radicalismo político têm marcado o debate nacional. Ao tomar distância desse radicalismo, Otoni busca não apenas se reposicionar, mas abrir espaço para uma direita mais moderada e crítica ainda alinhada a valores conservadores, mas sem se submeter a “pautas delirantes”, como ele mesmo disse posteriormente.
A reação foi rápida e polarizada. Entre bolsonaristas, houve críticas e tentativas de deslegitimar o gesto. Já em setores de oposição e de partidos mais moderados, o retorno de Otoni à “práxis política consciente e responsável” recebeu elogios. Para muitos, seu discurso representa não apenas a quebra de uma aliança, mas um convite à reflexão: até que ponto vale seguir cegamente uma causa se ela começa a conflitar com princípios fundamentais de justiça, empatia e coerência?
Otoni de Paula afirma que continuará na direita mas uma direita diferente: uma que busque “diretrizes factíveis”, e não fantasias políticas; que dialogue com a realidade concreta do Brasil, e não com promessas vazias. Sua decisão pode inspirar transformação interna na política, ou pode ser vista como manobra calculada. A história dirá.



