O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta quarta-feira (17), que pretende assinar já na próxima semana um decreto reconhecendo a música gospel como patrimônio cultural brasileiro. A declaração foi feita durante a última reunião ministerial do ano, realizada na Granja do Torto, residência oficial da Presidência da República, em Brasília. O anúncio, embora breve, carrega um peso simbólico considerável e acontece em um momento de tentativa clara do governo de reaproximação com o público evangélico.
Durante o encontro com ministros, Lula adotou um tom descontraído ao se dirigir ao advogado-geral da União, Jorge Messias, que aguarda sabatina no Senado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Conhecido por sua fé evangélica, Messias virou alvo de uma brincadeira presidencial: “Além de ser ministro da Suprema Corte, poderá cantar música gospel no Planalto”, disse Lula, arrancando risos dos presentes e antecipando o anúncio do decreto.
Por trás do humor, porém, há um cálculo político evidente. Dados divulgados nesta quarta-feira pela pesquisa PoderData mostram que a resistência dos evangélicos ao governo Lula segue alta. Segundo o levantamento, 66% dos evangélicos desaprovam a atual gestão, enquanto apenas 29% a aprovam. Entre os católicos, tradicionalmente mais favoráveis ao presidente, também houve desgaste: a aprovação caiu de 51% em setembro para 48% em dezembro, e a desaprovação subiu para 44%.
Nesse contexto, o reconhecimento da música gospel como patrimônio brasileiro surge como um gesto simbólico, mas estrategicamente relevante. O gospel, que deixou há muito tempo de ser um nicho restrito às igrejas, tornou-se um fenômeno cultural e econômico no Brasil. Grandes festivais, artistas com milhões de seguidores nas plataformas digitais e forte presença em rádios e eventos públicos consolidaram o gênero como parte do cotidiano musical de milhões de brasileiros, inclusive fora do ambiente religioso.
Paralelamente ao decreto, o governo tem intensificado outras frentes de diálogo com o público cristão. A primeira-dama Janja Lula da Silva passou a atuar de forma mais visível como interlocutora junto a lideranças evangélicas, especialmente em encontros voltados a mulheres. Nessas agendas, ela tem apresentado programas sociais do governo federal e buscado reduzir resistências históricas ao PT nesse segmento. A articulação conta ainda com o apoio da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, grupo que esteve alinhado à candidatura de Lula em 2022.
Entre lideranças cristãs, o anúncio do decreto foi recebido como um reconhecimento tardio, porém significativo, da importância do gospel para a cultura nacional. Ainda assim, há questionamentos sobre os efeitos práticos da medida. Para críticos, o gesto pode soar mais político do que estrutural, sem impacto direto em políticas públicas de incentivo cultural ou financiamento ao setor.
Mesmo assim, o movimento sinaliza uma mudança de postura. Ao reconhecer oficialmente a música gospel como patrimônio brasileiro, o governo Lula admite, ainda que simbolicamente, que a fé evangélica e suas expressões culturais ocupam hoje um espaço central na identidade do país. Se isso será suficiente para reduzir a desconfiança desse eleitorado, é uma resposta que só o tempo e as próximas pesquisas poderão dar.



