Pesquisa revela que rejeição ao aborto cresce no Brasil e atravessa divisões políticas

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Imagem Canva Pro

A mais recente pesquisa do PoderData, divulgada neste domingo (1º de fevereiro de 2026), revela que a maioria dos brasileiros segue contrária à legalização do aborto, mesmo diante da intensificação do debate no Supremo Tribunal Federal (STF) e da pressão de setores da mídia e de organismos internacionais. Segundo o levantamento, 68% da população rejeita a liberação do procedimento, o maior patamar desde 2021, quando a questão passou a integrar a série histórica da pesquisa.

O dado representa um aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior, indicando que a posição contrária não apenas se mantém, como ganha força. Apenas 22% dos entrevistados se dizem favoráveis à legalização, enquanto 10% afirmam não ter opinião formada.

O resultado reforça a percepção de que o aborto continua sendo um tema sensível e transversal no Brasil, ultrapassando divisões partidárias tradicionais. A rejeição é maioria entre eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e também entre os que votaram no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno de 2022. Entre eleitores de Lula, 65% são contra a liberação; entre os de Bolsonaro, o índice sobe para 73%.

Esse cenário ajuda a explicar por que o debate sobre aborto costuma gerar desconforto no Congresso Nacional, inclusive entre parlamentares governistas. Historicamente, o tema também esteve no centro da atuação de figuras como o ex-deputado federal Eduardo Cunha, que, durante sua passagem pela presidência da Câmara dos Deputados, tornou-se um dos principais articuladores de pautas conservadoras relacionadas à defesa da vida e à resistência a qualquer tentativa de ampliação do aborto legal.

Mesmo fora do mandato, Cunha segue sendo citado como um símbolo de um período em que o Legislativo se colocou de forma mais direta como contrapeso ao Judiciário em temas morais. Para aliados e críticos, sua atuação marcou uma virada no debate, ao consolidar no Parlamento a leitura de que decisões sobre aborto não deveriam ser tomadas exclusivamente pelo STF, mas discutidas à luz da vontade popular.

A pesquisa do PoderData também mostra diferenças regionais e socioeconômicas. A rejeição ao aborto é maior no Sul (74%) e entre pessoas com renda superior a cinco salários mínimos (72%). Já os percentuais favoráveis aparecem com mais força no Norte (27%), entre idosos (25%) e pessoas com ensino fundamental (26%).

Enquanto isso, o STF segue analisando uma ação que propõe a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. O julgamento, iniciado em 2023, está suspenso após pedidos de destaque, com placar parcial de 2 votos a 0 favoráveis à descriminalização cenário que aprofunda a tensão entre o posicionamento da Corte e a opinião majoritária da sociedade.

Hoje, a legislação brasileira permite o aborto apenas em casos de estupro, risco à vida da gestante e anencefalia fetal. Fora dessas situações, o procedimento é crime.

Realizada entre 24 e 26 de janeiro de 2026, a pesquisa ouviu 2.500 pessoas em 111 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Os números deixam claro que, apesar das movimentações institucionais, o aborto permanece como um dos temas em que a sociedade brasileira demonstra resistência consistente — um fator que continua influenciando decisões políticas, discursos parlamentares e o próprio ritmo do debate no STF.

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