Um levantamento divulgado em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha revelou um dado alarmante: 42,7% das mulheres evangélicas no Brasil afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência doméstica praticada por parceiros ou ex-parceiros ao longo da vida.
A pesquisa analisou diferentes formas de agressão dentro de relacionamentos íntimos, incluindo violência física, sexual, psicológica e mecanismos de controle.
No panorama geral do país, 32,4% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais relataram ter vivenciado violência física ou sexual cometida por companheiros ou ex-companheiros. O índice brasileiro supera a média global estimada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta cerca de 27% de mulheres entre 15 e 49 anos vítimas desse tipo de violência no mundo.
Diferentes formas de violência
O estudo detalha que a violência doméstica não se limita às agressões físicas. Entre as entrevistadas, 21,1% disseram ter sido forçadas a manter relações sexuais contra a própria vontade.
Além disso, 32,4% relataram sofrer humilhações, xingamentos ou ofensas frequentes por parte do parceiro. Outro dado preocupante aponta que uma em cada quatro mulheres brasileiras já sofreu agressão física dentro de um relacionamento.
O levantamento também identificou comportamentos de controle considerados formas de abuso psicológico. Cerca de 29,1% das mulheres afirmaram que o parceiro invadiu o celular ou computador sem consentimento para monitorar mensagens e atividades.
Já 17,1% disseram ter sido pressionadas a abandonar o trabalho ou os estudos por ciúmes do companheiro, um comportamento frequentemente associado a estratégias de isolamento e dependência emocional.
Diferenças entre grupos religiosos
Quando o estudo analisa recortes religiosos, aparecem pequenas variações. Entre mulheres evangélicas, 49,7% afirmaram ter vivido ao menos uma situação de controle ou violência no relacionamento.
Entre mulheres católicas, o índice registrado foi de 44,3%. Embora a diferença não seja considerada grande pelos pesquisadores, ela indica que a violência de gênero atravessa diferentes contextos religiosos e sociais.
Bispa cobra posicionamento das igrejas
A bispa Sônia Hernandes, líder da Igreja Renascer em Cristo e do grupo musical Renascer Praise, comentou o tema publicamente em suas redes sociais e criticou o silêncio de alguns ambientes religiosos diante da violência doméstica.
“Não podemos simplesmente ouvir histórias como estas e cruzar os braços. Mais de 40% de mulheres que sofrem como estas são cristãs e muitas são instruídas a se calarem em nome de Deus. Aonde está isso na Bíblia?”, questionou.
A fala reflete uma discussão crescente dentro de igrejas evangélicas, especialmente diante de relatos de vítimas que afirmam ter recebido aconselhamento para preservar o casamento mesmo em situações de agressão.
Igrejas começam a reagir
Segundo a própria liderança da Igreja Renascer, cerca de 100 mulheres em situação de violência procuram ajuda mensalmente na instituição. Muitas chegam aos cultos com marcas físicas das agressões.
A igreja afirma manter uma rede de advogados voluntários para orientação jurídica das vítimas e planeja ampliar o programa Tempo de Despertar, iniciativa voltada à ressocialização de homens autores de violência.
O tema também foi abordado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), que orientou líderes religiosos a não se limitarem a aconselhar oração ou paciência às vítimas, mas a encaminhá-las às autoridades competentes.
Igreja nem sempre é a primeira opção de ajuda
Um estudo acadêmico da Faculdade Evangélica das Assembleias de Deus no Brasil revela outro dado importante: quando questionadas sobre a quem recorreriam primeiro em caso de agressão, 50% das mulheres disseram que procurariam a família, 40% afirmaram que buscariam uma delegacia especializada, e apenas 10% indicaram a igreja.
Para pesquisadores, esse dado sugere que muitas vítimas ainda não enxergam as instituições religiosas como um espaço seguro para denunciar ou buscar apoio.
Especialistas defendem que o enfrentamento da violência doméstica exige cooperação entre igrejas, poder público e sociedade civil, com foco em acolhimento das vítimas, prevenção e promoção de relacionamentos saudáveis.



