Um vídeo divulgado nas redes sociais neste início de semana voltou a acender o pavio entre religião e política no Brasil. Nele, onze líderes evangélicos de peso — incluindo Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Estevam Hernandes e César Augusto — convocam fiéis para um ato público na Avenida Paulista, no próximo domingo (29), às 14h. O objetivo? Reivindicar o que chamam de “justiça” para os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
O episódio, que ficou conhecido mundialmente, foi marcado pela invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro inconformados com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas urnas. Desde então, mais de 1.400 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal, com dezenas de condenações que incluem penas de até 17 anos por crimes como associação criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado de Direito e dano ao patrimônio público.
No vídeo, Malafaia dispara:
“Oração sem ação, qual é o valor? Convoco todos para tomarmos uma atitude diante de tanta injustiça, de ver patriotas inocentes serem condenados.”
Rodovalho, por sua vez, chama atenção para a suposta desproporcionalidade das penas.
“Não podemos aceitar tantos inocentes condenados e com penas tão desproporcionais no Brasil.”
Além deles, nomes como Renê Terra Nova, Samuel Câmara, Abner Ferreira, Téo Hayashi e Jorge Linhares endossam o apelo. Todos são figuras conhecidas no meio evangélico e com histórico de engajamento político, especialmente em pautas conservadoras.
Fé ou palanque?
A convocação para a manifestação, embora embalada por retórica religiosa, é indiscutivelmente política. Muitos dos pastores envolvidos têm proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro e fizeram parte ativa da base evangélica que o apoiou nas eleições de 2022. A própria escolha da Avenida Paulista, reduto simbólico da direita brasileira, e a narrativa de “patriotas inocentes” reforçam essa ligação.
Críticos veem no ato um movimento claro de politização da fé, com líderes religiosos utilizando seus púlpitos e influência espiritual para mobilizar massa em torno de uma agenda ideológica. Já defensores alegam que o posicionamento é legítimo, uma vez que as condenações seriam injustas e atingiriam pessoas simples, “enganadas” ou “presas sem provas”.
Polarização e riscos
O caso revela mais uma vez como o campo evangélico se consolidou como força política no Brasil, não apenas como base eleitoral, mas como formador de opinião pública e pressão institucional. A movimentação destes líderes amplia a tensão entre o Judiciário — especialmente o STF — e setores religiosos conservadores, num contexto já altamente polarizado.
A manifestação marcada para o domingo, mesmo que pacífica, promete gerar reações. O risco é que, mais uma vez, o discurso de fé se confunda com retórica de confronto político, alimentando a perigosa narrativa de perseguição religiosa e judicial.
Enquanto isso, o Brasil segue tentando encontrar o delicado equilíbrio entre liberdade de expressão, responsabilidade democrática e o papel da religião no debate público.



