A ex-ministra de louvor Alyeni Donasci, que por anos integrou os quadros da Igreja Mananciais, decidiu romper o silêncio e tornar públicas denúncias graves sobre a dinâmica interna da instituição. Em entrevista ao canal Fuxico Gospel, Alyeni detalhou um ambiente que, segundo ela, envolve manipulação emocional, trabalho forçado disfarçado de voluntariado, humilhações públicas e ausência de transparência financeira.
O centro das denúncias é a chamada “turma especial”, um curso intensivo promovido pela igreja que prometia desenvolver o “caráter de Cristo” nos participantes, mas que, na prática, segundo a ex-integrante, funcionava como um regime de controle psicológico e dependência total da liderança.
“Eles diziam que era para formar o caráter de Cristo, mas era manipulação total. Usavam o medo, a culpa e a vergonha para nos moldar”, afirmou.
Regras rígidas, punições e isolamento emocional
Segundo Alyeni, ao ingressar no programa, foi encorajada a abandonar emprego, família e rotina para se dedicar exclusivamente à igreja. A rotina incluía aulas, exercícios físicos, avaliações e um sistema de pontuação em que qualquer deslize — como demonstrar cansaço, beijar um namorado ou reclamar — podia resultar em punições severas ou exclusão do grupo.
Ela relata também a existência de um ambiente de vigilância constante, em que todos os passos dos alunos eram monitorados. “O medo de ser cortado ou desonrado era constante. Eles diziam que quem não aguentasse o processo estava em pecado.”
Um dos episódios mais marcantes era a “semana do impostor”, uma dinâmica em que os participantes tinham que expor seus supostos “pecados” diante de todos. “Ali me senti despida, envergonhada, emocionalmente quebrada. A intenção era humilhar para depois reconstruir à imagem deles.”
Trabalho não remunerado e suposta exploração
Alyeni afirma que os integrantes da “turma especial” eram obrigados a executar diversas tarefas sem qualquer remuneração, sob o discurso de que estavam “servindo ao Reino”. Isso incluía desde lavar banheiros e cozinhar até cuidar dos filhos de pastores e limpar suas casas.
“Conheço meninas que foram enviadas como babás para as casas dos líderes sem serem consultadas. Isso era tratado como ‘parte da formação espiritual’.”
Segundo ela, esse tipo de exploração era justificado com argumentos bíblicos, tornando os jovens emocionalmente reféns da estrutura da igreja.
Difamação e exposição após tentativa de saída
Ao encerrar um relacionamento com outro membro da igreja, Alyeni passou a ser alvo de difamações internas. Ela acusa a liderança de vazar prints de conversas privadas para sustentar boatos sobre a existência de um vídeo íntimo — algo que ela nega veementemente.
“Foi uma tentativa clara de manchar minha imagem e me silenciar. Tudo para proteger o rapaz com quem me relacionei e me afastar da comunidade sem que eu pudesse falar.”
Acusações financeiras: alto faturamento, pouca transparência
Além das denúncias emocionais e morais, Alyeni levanta questões sobre a opacidade na gestão financeira da Igreja Mananciais. Ela afirma que a instituição movimenta valores expressivos por meio de mensalidades de cursos (de até R$ 1.800), produtos, escolas e eventos, mas sem qualquer prestação pública de contas.
“Eles criaram um verdadeiro império com CNPJs diferentes, empresas em nome de familiares e faturamento fragmentado. É um sistema altamente lucrativo escondido sob o discurso de espiritualidade.”
“Se minha dor salvar alguém, vale a pena”
Apesar do risco de retaliação, Alyeni diz que decidiu tornar tudo público após anos de sofrimento e muitas sessões de terapia.
“Minha dor não será em vão. Eu sei que tem gente que ainda está presa nisso. Se uma só pessoa despertar com esse relato, já terá valido a pena.”
Ela afirma que outras ex-integrantes também viveram situações semelhantes, mas ainda não se sentem prontas para falar.
Igreja não se pronunciou
Até o fechamento desta matéria, a Igreja Mananciais não se manifestou sobre as acusações feitas por Alyeni Donasci, mesmo após contato da equipe de reportagem. O silêncio da instituição, diante da gravidade dos relatos, apenas aumenta a pressão por respostas públicas e investigações mais aprofundadas.
A denúncia reacende o debate sobre os limites entre liderança espiritual, abuso de poder e exploração dentro de espaços religiosos. Alyeni representa uma voz que, mesmo ferida, escolheu não se calar — e talvez inspire outras a fazerem o mesmo.
Assista a entrevista completa: https://youtu.be/Tn-kH3AKkHI



