A votação do projeto de lei que propõe a legalização dos cassinos, bingos, jogo do bicho e apostas em corridas de cavalos foi adiada pelo Senado Federal. A análise do texto estava prevista para esta terça-feira (8), mas foi retirada da pauta de última hora, diante de forte resistência de parte dos parlamentares e da pressão crescente de lideranças religiosas.
O projeto, de autoria do senador Irajá (PSD-TO), já havia sido aprovado na Câmara dos Deputados e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A expectativa era de que o texto fosse apreciado em plenário nesta tarde, mas divergências internas e articulações políticas levaram ao recuo. Ainda não há nova data definida para a votação.
O adiamento ocorre em meio a um debate intenso sobre os impactos sociais e econômicos da proposta. De um lado, defensores afirmam que a medida pode gerar empregos, impulsionar o turismo e ampliar a arrecadação de impostos. De outro, críticos apontam que a liberação pode alimentar vícios, destruir famílias e facilitar práticas criminosas como a lavagem de dinheiro.
Pressão evangélica
O recuo no Senado coincide com a mobilização de líderes evangélicos influentes, entre eles o pastor Silas Malafaia, que nas últimas horas elevou o tom contra o projeto. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ele acusou o governo de querer legalizar o jogo para “cobrir o rombo da incompetência” e prometeu divulgar os nomes dos senadores que votarem a favor da proposta.
“O jogo é doença reconhecida pela OMS, destrói famílias e é uma desgraça. A sociedade precisa acordar. Vamos lembrar de quem estiver com isso nas urnas”, declarou Malafaia.
A fala inflamou parte da base conservadora e aumentou o custo político de apoiar a legalização. O temor de desgaste entre o eleitorado evangélico fez com que alguns senadores pedissem mais tempo para discutir a matéria, o que acabou levando ao adiamento.
O que previa o projeto?
O texto em discussão estabelece a liberação controlada de cassinos em resorts ou navios, com número limitado por estado. São Paulo, por exemplo, poderia ter até três cassinos, enquanto estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas e Pará poderiam abrigar até dois. Os bingos seriam permanentes, com uma casa para cada município ou, em cidades maiores, uma a cada 150 mil habitantes. Já o jogo do bicho teria uma operadora para cada 700 mil habitantes por estado.
Além disso, máquinas caça-níqueis seriam autorizadas, com exigência de auditoria e divisão da receita entre operadores e empresas fornecedoras.
O adiamento representa mais um capítulo na longa novela da legalização dos jogos no Brasil, tema que ressurge ciclicamente, mas enfrenta obstáculos quando se aproxima da votação final. Até o momento, o presidente Lula não se manifestou publicamente sobre o tema, mas aliados no governo já demonstraram interesse na aprovação como forma de aumentar a arrecadação.
Nos bastidores, líderes religiosos prometem intensificar a pressão sobre o Congresso nas próximas semanas. Já os defensores da medida seguem articulando para garantir maioria em uma futura votação. A disputa está longe de terminar — e o campo está cada vez mais dividido.



