Uma batalha judicial envolvendo fé, memória e muito dinheiro está em curso em Belo Horizonte. A Igreja do Evangelho Quadrangular foi acionada na Justiça pelos herdeiros da antiga Fazenda Braúnas, na região da Pampulha, que alegam ocupação irregular de parte das terras.
O processo (nº 5206249-46.2024.8.13.0024), que tramita na 6ª Vara Cível da capital mineira, pede que a instituição religiosa deixe imediatamente a área de 18 mil m² onde está instalado o complexo conhecido como Cidade Quadrangular. Além da reintegração de posse, os herdeiros exigem R$ 100 mil mensais de alugueres retroativos desde 2015, valor que, atualizado, ultrapassaria dezenas de milhões de reais.
A história remonta à década de 1940, quando o proprietário da fazenda, José Raimundo Varela, foi internado compulsoriamente por suspeita de hanseníase. Desde então, segundo os descendentes, suas terras — que somam mais de 198 mil m² — teriam sido gradualmente tomadas por empresários, órgãos públicos e instituições religiosas, sem usucapião ou indenização.
Na ação, os familiares relatam que, por décadas, foram impedidos de reivindicar seus direitos por meio de intimidações e até ameaças. Eles afirmam que só tiveram acesso formal ao inventário da fazenda em 2023, mais de 80 anos após a morte do patriarca.
O ponto mais delicado está na documentação: a matrícula original do imóvel, datada de 1937, nunca foi alterada. Para a defesa dos herdeiros, isso prova que não houve transferência ou compra legítima. “A ausência de qualquer registro posterior torna a posse da igreja injusta e arbitrária”, diz a advogada Enilza Aparecida Gonçalves.
A área em questão é extremamente valorizada: fica às margens da Avenida Otacílio Negrão de Lima, cartão-postal da Pampulha, com imóveis avaliados em mais de R$ 100 milhões. Para os herdeiros, permitir que a igreja continue erguendo projetos sociais no local seria consolidar uma posse que nunca foi legitimada.
O caso também expõe uma ferida antiga da cidade: terras nobres da capital mineira que mudaram de mãos sem transparência e que, décadas depois, ressurgem em disputas judiciais. Se confirmada a tese dos herdeiros, a ação pode se tornar um precedente de grande impacto contra ocupações históricas na região.
Enquanto isso, a igreja segue em silêncio sobre o processo. Mas a briga que mistura religião, memória familiar e especulação imobiliária promete se arrastar por anos — e reacender o debate sobre a posse de terras em áreas urbanas de alto valor no Brasil.



