O Uruguai entrou oficialmente para a história ao aprovar, nesta quarta-feira (15), a lei da “Morte Digna”, tornando-se o primeiro país da América do Sul a legalizar a eutanásia por via legislativa. A medida foi aprovada no Senado com 20 votos a favor e 11 contra, após cinco anos de intensos debates sobre os limites da autonomia humana e o valor da vida.
A nova legislação descriminaliza a eutanásia em casos de doenças incuráveis e sofrimento físico ou emocional considerado “insuportável”, desde que o paciente esteja em plena capacidade mental e o pedido seja confirmado por dois médicos. Com isso, o Uruguai se diferencia de Colômbia e Equador, onde a prática foi autorizada apenas por decisão judicial.
Segundo pesquisa recente, 62% dos uruguaios apoiam a medida. Para a senadora Patricia Kramer, uma das autoras do projeto, a aprovação é “um ato de empatia e respeito pela dignidade humana”. Já o senador Daniel Borbonet afirmou: “A vida é um direito, mas não pode ser uma obrigação”.
Entre os apoiadores da causa está Beatriz Gelós, de 71 anos, paciente com ELA, que viu na nova lei “um gesto de compaixão”.
Contudo, a aprovação também provocou forte reação religiosa. A Igreja Católica e grupos cristãos classificaram o texto como “perigoso e limitado”. O pastor e teólogo Samuel Valério destacou que, sob a ótica cristã, “a vida pertence a Deus, e apenas Ele pode dá-la ou tirá-la”. Citando o livro de Jó, o líder religioso reforçou a importância de confiar na soberania divina, mesmo diante do sofrimento.
A decisão reafirma o Uruguai como uma das nações mais liberais da América Latina, pioneira em pautas como aborto legal, casamento igualitário e uso recreativo da maconha. Agora, com a eutanásia legalizada, o país se coloca no centro do debate moral e bioético do continente equilibrando, mais uma vez, liberdade individual e valores espirituais.



