PM é acionada após pai se revoltar com desenho de Iansã em escola municipal de SP

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Imagem Reprodução

Uma situação que deveria ser apenas mais uma atividade pedagógica de artes acabou se transformando em caso de polícia na Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) do Caxingui, na zona oeste de São Paulo. Tudo começou quando uma aluna de apenas quatro anos levou para casa um desenho coletivo inspirado na figura de Iansã uma das orixás mais conhecidas das religiões de matriz africana, símbolo de coragem, movimento e transformação. O pai, no entanto, não reagiu bem.

Segundo relatos de funcionários e pais de alunos, o homem retornou à escola na terça-feira visivelmente irritado e chegou a danificar o mural onde estavam expostos os trabalhos das crianças. A atividade fazia parte do currículo antirracista adotado pela rede municipal, que prevê a abordagem da cultura afro-brasileira como patrimônio histórico, e não como ensino religioso. Apesar de ser convocado para uma reunião no Conselho Escolar, o pai não compareceu.

No lugar disso, registrou uma ocorrência na Polícia Militar alegando que a filha estaria sendo submetida a uma “aula de religião africana”. A resposta foi imediata: quatro policiais militares se dirigiram à escola na manhã seguinte para “averiguar” o caso, gerando apreensão entre professores e pais. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, os PMs apenas conversaram com as partes e orientaram que, caso necessário, fosse registrado um boletim de ocorrência. A Corregedoria afirmou estar disponível para apurar qualquer questionamento sobre a conduta dos agentes.

A Secretaria Municipal de Educação também se pronunciou, reforçando que o desenho era fruto de uma atividade coletiva e fazia parte dos conteúdos previstos na legislação sobre ensino de história e cultura africana e afro-brasileira obrigatórios desde a Lei 10.639/2003. Ou seja: não se tratava de catequese, mas de educação cultural.

Ainda assim, o episódio expõe um problema que vem crescendo nas escolas brasileiras: a confusão entre ensino sobre culturas diversas e suposta doutrinação religiosa. Em tempos de polarização e desconhecimento sobre religiões de matriz africana, situações simples acabam amplificadas por medo, desinformação e preconceito. O que deveria ser uma aula sobre diversidade virou intervenção policial.

Enquanto isso, a pequena de quatro anos só queria desenhar. E talvez seja justamente ela quem nos lembra que o Brasil é muito maior e mais bonito quando aprende a olhar para todas as suas raízes.

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