O papamóvel que transportou o papa Francisco durante sua visita histórica a Belém, em 2014, acaba de ganhar um novo propósito — e talvez o mais simbólico de sua trajetória. O veículo, exibido oficialmente nesta terça-feira (25/11), foi transformado em uma clínica móvel destinada ao atendimento de crianças da Faixa de Gaza, cumprindo o último pedido do pontífice, que morreu em abril deste ano.
A apresentação ocorreu em Belém, na Cisjordânia, diante de líderes religiosos e representantes da Caritas Jerusalém, organização que realizou a adaptação. Durante o evento, o cardeal Anders Arborelius, bispo de Estocolmo, abençoou o que chamou de “veículo da esperança”. Para ele, o papamóvel convertido é mais do que um símbolo religioso: “É um testemunho de que o mundo não esqueceu das crianças de Gaza. Não é apenas um veículo: é uma mensagem de compaixão, dignidade e esperança”.
Apesar da iniciativa, o veículo ainda aguarda autorização do governo de Israel para entrar em Gaza um entrave que já se tornou rotina para organizações humanitárias desde o colapso quase total do sistema de saúde local. A expectativa da Caritas é que a liberação ocorra nas próximas semanas, especialmente porque a demanda por atendimento pediátrico é urgente devido à desnutrição, infecções e ferimentos provocados pela guerra.
Nos meses finais de sua vida, Francisco procurou diretamente a Caritas Jerusalém e manifestou seu desejo: que o papamóvel voltasse às ruas, mas desta vez para aliviar a dor dos mais vulneráveis as crianças palestinas. O pontífice acompanhava com preocupação a deterioração da crise humanitária na região e queria que o veículo se tornasse um gesto concreto de cuidado.
Com investimento aproximado de US$ 15 mil (cerca de R$ 80 mil), o papamóvel foi equipado com instrumentos de diagnóstico, vacinas, kits de sutura, testes rápidos e materiais de primeiros socorros. O interior do veículo foi reorganizado para acomodar consultas completas, inclusive com espaço para atendimento psicológico uma necessidade crescente em meio aos traumas da guerra.
Em um detalhe carregado de simbolismo, as crianças que passarem pelo atendimento se sentarão na mesma cadeira onde Francisco acenou às multidões em 2014.
A Caritas estima que a clínica móvel poderá realizar até 200 consultas por dia, alcançando áreas de Gaza onde carros comuns já não passam devido aos blocos de escombros. Peter Brune, secretário-geral da instituição, reforçou em comunicado que o gesto não é apenas humanitário, mas profundamente espiritual: “Poderemos chegar às crianças que hoje não têm acesso a cuidados de saúde, às crianças feridas e desnutridas. Esta é uma intervenção concreta em um momento em que o sistema de saúde de Gaza entrou em colapso”.



