O nome do apóstolo Cesar Belluci, líder da Sete Church, passou a ocupar o centro de uma das discussões mais sensíveis envolvendo religião, política e dinheiro nos últimos meses. Alvo de um requerimento na CPMI do INSS, Belluci também figura como réu em uma ação judicial movida por pessoas que afirmam ter sido lesadas em um suposto esquema de pirâmide financeira envolvendo investimentos em criptomoedas. Segundo os processos, o prejuízo estimado pode chegar a R$ 70 milhões.
O caso ganhou ainda mais visibilidade após uma disputa pública entre a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o pastor Silas Malafaia. Integrante da CPMI, Damares divulgou uma lista de evangélicos citados ou investigados no contexto da comissão depois de ser provocada por Malafaia. Entre os nomes mencionados estava o de Belluci, o que ampliou a repercussão do episódio dentro e fora do meio religioso.
A CPMI do INSS foi instaurada após a Polícia Federal deflagrar, em abril do ano passado, a Operação Sem Desconto, que teve como ponto de partida uma série de reportagens revelando fraudes em descontos irregulares aplicados diretamente na folha de pagamento de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social. O escândalo ficou conhecido como a “Farra do INSS” e expôs uma complexa rede de movimentações financeiras suspeitas.
Relatórios de inteligência financeira enviados à comissão apontam que alguns investigados no esquema frequentavam a Sete Church. Um deles teria realizado um Pix superior a R$ 120 mil para a igreja. Outro, segundo os documentos, passou a pagar dízimos recorrentes a partir de 2022 justamente o ano em que o suposto esquema com criptomoedas veio à tona além de ter doado bens de alto valor, como uma BMW e um relógio Rolex, à instituição religiosa.
De acordo com relatos de investidores, os primeiros rendimentos prometidos foram pagos regularmente, o que é comum em esquemas desse tipo. No entanto, em fevereiro de 2022, a distribuição dos lucros foi interrompida sob a justificativa de uma “considerável instabilidade do mercado de criptoativos”. Desde então, muitos afirmam não ter recuperado os valores aplicados.
À imprensa, Camargo, um dos citados no processo, afirmou ter apresentado à Justiça mais de 500 documentos para comprovar sua inocência. Ele sustenta que a responsabilidade pelos prejuízos é de Meldequias Vasconcelos, apontado como o verdadeiro responsável pelos desvios. Em depoimento à polícia, Camargo e Lara declararam que Vasconcelos teria desviado R$ 6 milhões da empresa Ever. O episódio ganha contornos ainda mais controversos com a alegação de que o auditor contratado para identificar o rombo teria furtado US$ 120 durante o processo.
O caso expõe uma combinação explosiva de fé, promessas financeiras e estruturas pouco transparentes, reacendendo o debate sobre a necessidade de maior fiscalização em iniciativas que misturam liderança religiosa e investimentos. Enquanto a CPMI avança e a Justiça analisa as ações, o episódio lança luz sobre um tema delicado: até onde vai a responsabilidade de líderes religiosos quando fiéis e investidores afirmam ter sido enganados em nome da confiança e da fé.



