Desfile da Acadêmicos de Niterói vira alvo de denúncia na PGR por suposta ridicularização de evangélicos

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Imagem Reprodução Globoplay

O que era para ser apenas mais um desfile no Carnaval do Rio de Janeiro acabou se transformando em caso jurídico e político. A escola de samba Acadêmicos de Niterói foi alvo de uma queixa formal encaminhada à Procuradoria-Geral da República (PGR) após parlamentares acusarem a agremiação de promover ridicularização pública de evangélicos durante sua apresentação no Grupo Especial.

Os senadores Magno Malta (PL) e o deputado federal Rodolfo Nogueira (PL) protocolaram representações questionando uma alegoria que retratava famílias identificadas como “neoconservadores em conserva”. A encenação trouxe integrantes fantasiados como latas, com imagens de famílias tradicionais e exemplares de “Bíblias” nas mãos. Em alguns casos, os figurinos incluíam um livro vermelho com cruz dourada, fazendo referência simbólica ao texto sagrado cristão.

Durante o desfile, a escola também homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e associou o chamado “neoconservadorismo” a outros perfis, como representantes do agronegócio, mulheres da elite econômica e defensores da ditadura militar. A proposta artística buscava uma crítica social e política algo comum no carnaval carioca. No entanto, para os parlamentares, a abordagem ultrapassou os limites da sátira.

Na queixa apresentada à PGR, Magno Malta invocou o artigo 20 da Lei 7.716/1989, que trata de crimes resultantes de preconceito religioso. Ele argumenta que a representação visual expôs evangélicos ao escárnio coletivo ao equipará-los a objetos enlatados dentro de uma narrativa depreciativa. Já Rodolfo Nogueira solicitou apuração com base no artigo 208 do Código Penal, que trata de ultraje a culto e escarnecimento público por motivo de crença religiosa.

Além da questão penal, os parlamentares também pediram investigação sobre o uso de recursos públicos pela escola e levantaram suspeitas de possível propaganda eleitoral antecipada.

O caso ganhou novo peso após manifestação da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Rio de Janeiro (OAB-RJ), que divulgou nota de repúdio classificando a representação como intolerância religiosa. A entidade ressaltou que a liberdade religiosa é direito fundamental assegurado pela Constituição e que qualquer prática discriminatória merece apuração.

O episódio reacende um debate antigo e sempre delicado: até onde vai a liberdade artística e onde começa a violação da dignidade de grupos religiosos? O carnaval historicamente se apresenta como espaço de crítica social, ironia e provocação. Mas, em um país profundamente religioso e politicamente polarizado, a linha entre sátira e ofensa se torna cada vez mais tênue.

Enquanto a PGR avalia os pedidos, o desfile da Acadêmicos de Niterói já deixou claro que, no Brasil atual, arte, política e religião continuam entrelaçadas e prontas para incendiar o debate público.

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