A ideia pode soar curiosa, inovadora ou até desconfortável dependendo do ponto de vista. Um novo aplicativo lançado pela empresa Just Like Me está chamando atenção ao oferecer algo inusitado: videochamadas com um avatar hiper-realista de Jesus, criado por inteligência artificial. O serviço, no entanto, não é gratuito. Para conversar com a figura digital, o usuário precisa desembolsar US$ 1,99 por minuto, o equivalente a cerca de R$ 10.
A proposta mistura tecnologia de ponta com espiritualidade. Ao acessar a plataforma, o usuário inicia uma chamada em vídeo e interage com o personagem, que responde em tempo real com base em conteúdos bíblicos e materiais cristãos previamente treinados. O sistema utiliza modelos de linguagem avançados, combinados com geração de imagem e sincronização labial, criando uma experiência que tenta simular proximidade e diálogo contínuo.
Além da cobrança por minuto, o app também oferece planos mensais com tempo limitado de uso uma lógica já comum em serviços de streaming, mas que agora invade um território muito mais sensível: o da fé. A promessa é de uma experiência personalizada, com respostas que podem até “lembrar” interações anteriores, reforçando a sensação de relacionamento com o avatar.
Visualmente, o personagem foi inspirado na aparência do ator Jonathan Roumie, conhecido por interpretar Jesus na série The Chosen. A escolha não é por acaso: quanto mais familiar e emocionalmente reconhecível, maior o engajamento do usuário.
Mas nem todo mundo vê a novidade com entusiasmo.
O surgimento de ferramentas religiosas baseadas em IA que incluem desde “pastores virtuais” até aconselhamento automatizado tem gerado debates intensos. Especialistas alertam para riscos reais, como dependência emocional, distorção de ensinamentos e até a comercialização da fé. Afinal, quando uma experiência espiritual passa a ter preço por minuto, a linha entre inovação e exploração se torna cada vez mais tênue.
Há também uma questão mais profunda: quem valida a autoridade desse “Jesus digital”? Sem uma liderança espiritual real por trás, o conteúdo depende exclusivamente de algoritmos e bases de dados o que pode abrir espaço para interpretações imprecisas ou simplificadas de temas complexos.
No fim das contas, o aplicativo revela mais sobre o nosso tempo do que sobre tecnologia em si. Vivemos uma era em que tudo pode ser acessado sob demanda inclusive experiências espirituais. Ainda assim, para muitos, permanece a convicção de que a fé não precisa de interface, assinatura ou inteligência artificial.
E talvez seja justamente aí que está o contraste mais forte: enquanto a tecnologia tenta aproximar o sagrado das telas, há quem continue acreditando que a conexão mais profunda ainda acontece longe delas sem custo, sem intermediários e sem limite de tempo.



