A sabatina de Jorge Messias no Senado Federal, nesta quarta-feira (29), começou com uma declaração que rapidamente chamou atenção dentro e fora do meio político: o indicado ao Supremo Tribunal Federal fez questão de afirmar publicamente sua identidade evangélica ao mesmo tempo em que reforçou o compromisso com a laicidade do Estado brasileiro.
Logo na abertura de sua fala na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Messias buscou equilibrar dois campos que frequentemente entram em tensão no debate público. “Minha identidade é evangélica, todavia eu tenho plena clareza que o Estado constitucional é laico”, declarou. Ele acrescentou que essa laicidade, em sua visão, deve ser “colaborativa”, permitindo diálogo entre o poder público e diferentes religiões.
A fala não veio por acaso. Nos bastidores, parlamentares especialmente ligados à bancada evangélica vinham cobrando posicionamentos mais claros do indicado sobre temas sensíveis, como direito à vida, família e liberdade religiosa.
Messias respondeu diretamente a esse tipo de expectativa ao afirmar que valores cristãos também dialogam com princípios constitucionais. Ele citou a proteção da família, das crianças e adolescentes e a inviolabilidade do direito à vida como pontos que, segundo ele, encontram respaldo tanto na fé quanto no texto da Constituição.
Ainda assim, fez questão de reforçar que sua atuação, caso aprovado, será guiada pela lei e não por convicções pessoais.
A escolha de Messias foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar a vaga que será aberta com a saída de Luís Roberto Barroso da Corte. A indicação ocorre em um momento de forte polarização política e crescente pressão sobre o STF em temas ligados a costumes e direitos individuais.
Nesse contexto, cada palavra dita na sabatina ganha peso. A menção à fé evangélica, por exemplo, pode ser vista como um aceno a um segmento influente da sociedade, enquanto a defesa da laicidade busca tranquilizar setores que temem interferência religiosa nas decisões judiciais.
A estratégia de Messias parece clara: mostrar que é possível ter uma identidade religiosa definida sem abrir mão do compromisso institucional com um Estado plural. Resta saber se esse equilíbrio será suficiente para convencer os senadores e, principalmente, se conseguirá se sustentar na prática, caso ele chegue ao Supremo.
Porque, no fim das contas, no STF não basta discurso. É no voto que a coerência realmente aparece.



