Uma pesquisa recente acendeu um alerta importante e desconfortável dentro do cenário religioso brasileiro. O estudo “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, conduzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, revelou que a violência doméstica atinge de forma significativa mulheres evangélicas no país.
Os dados, divulgados pela revista Le Monde Diplomatique Brasil, mostram que 42,7% das mulheres evangélicas relataram já ter sofrido violência doméstica ao longo da vida número superior ao registrado entre católicas, que ficou em 35%.
O levantamento também aponta que uma em cada quatro brasileiras já sofreu agressão física por parceiro ou ex-parceiro. Ainda mais preocupante é o dado sobre subnotificação: 47,4% das vítimas de violência grave não denunciaram os agressores.
Dentro desse cenário, a igreja aparece como um dos primeiros lugares de busca por ajuda ainda que de forma limitada. Cerca de 6% das mulheres recorreram a ambientes religiosos em momentos de crise.
Isso revela um paradoxo: ao mesmo tempo em que a igreja pode ser refúgio, também pode, em alguns casos, funcionar como barreira para a ruptura do ciclo de violência.
Segundo a pesquisadora Isabella Matosinhos, do FBSP, um dos fatores que dificultam a denúncia é a forma como o casamento é tratado em determinados contextos religiosos.
A ideia da “sacralidade do matrimônio” pode levar algumas mulheres a permanecerem em relações abusivas, muitas vezes incentivadas a suportar a situação com resignação ou oração, na esperança de mudança do agressor.
Esse tipo de orientação, embora muitas vezes bem-intencionada, acaba prolongando o sofrimento e dificultando a saída de ambientes violentos.
O estudo traça também um perfil predominante: mulheres entre 25 e 34 anos, muitas vezes separadas ou divorciadas, com filhos, negras, com menor nível de escolaridade e residentes em regiões urbanas.
Esses dados mostram que a violência doméstica não é apenas uma questão individual ou familiar ela está profundamente ligada a fatores sociais, econômicos e estruturais.
Apesar das críticas, especialistas apontam que o ambiente religioso também pode ser um aliado importante no enfrentamento da violência.
A proximidade entre líderes evangélicos e fiéis, por exemplo, pode facilitar o acolhimento, a escuta e a orientação desde que haja preparo adequado.
Nos últimos dias, esse debate ganhou força após a repercussão da fala da pastora Helena Raquel, que criticou abertamente a cultura de silêncio dentro das igrejas e incentivou vítimas a denunciarem seus agressores.
A proposta de criar espaços de acolhimento, com orientação e apoio psicológico, surge como um caminho possível para transformar a igreja em um agente ativo de proteção.



