A denúncia protocolada contra o Frei Gilson no Ministério Público de São Paulo trouxe de volta ao centro do debate um tema que o Brasil ainda não resolveu bem: até onde vai a liberdade religiosa e onde começa a responsabilidade social do discurso.
O autor da denúncia é o jornalista e escritor Brendo Silva, ex-noviço, que acusa o religioso de promover falas discriminatórias contra pessoas LGBT+ e mulheres em homilias, entrevistas e conteúdos nas redes sociais.
Segundo o documento, Frei Gilson teria utilizado termos considerados ultrapassados, como “homossexualismo”, além de associar a homossexualidade a ideias como “desordem” e “depravação grave”. Em um dos trechos citados, o religioso afirma: “se a tua igreja está falando que não pode homem com homem, não pode e acabou”.
Para Brendo, esse tipo de abordagem ultrapassa o campo da doutrina e contribui para reforçar estigmas sociais. Na denúncia, ele sustenta que “liberdade religiosa não é liberdade para odiar”, destacando o impacto que discursos desse tipo podem ter em um país com altos índices de violência contra pessoas LGBT+ e mulheres.
A questão não é nova, mas ganha novos contornos à medida que discursos religiosos passam a circular com mais alcance nas redes sociais. O que antes ficava restrito ao púlpito, hoje viraliza, é compartilhado e influencia debates públicos.
E é justamente nesse ponto que a discussão se intensifica: líderes religiosos têm o direito de expressar suas convicções doutrinárias, mas essas falas podem ser questionadas quando extrapolam o campo interno da fé e impactam grupos vulneráveis.
Um dos elementos que mais chamam atenção no caso é o perfil de quem faz a denúncia. Brendo Silva não fala de fora ele conhece o ambiente religioso por dentro. Foram mais de 10 anos de vivência como coroinha e noviço.
Na denúncia, ele aponta uma contradição que, segundo ele, é ignorada: a presença de pessoas homossexuais dentro da própria estrutura da Igreja, ao mesmo tempo em que discursos oficiais reforçam exclusões.
“É preciso coerência e responsabilidade”, argumenta o jornalista, que também já escreveu sobre o tema envolvendo sacerdotes gays.
O caso agora está nas mãos do Ministério Público, que deve avaliar se há elementos que configurem violação legal ou se as falas permanecem protegidas pela liberdade de expressão religiosa.



