China muda trecho da Bíblia, coloca Jesus como pecador e aumenta repressão contra cristãos

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Imagem Canva Pro

O avanço do controle estatal sobre a fé cristã na China voltou a acender o alerta entre organizações internacionais de liberdade religiosa. Nos últimos meses, denúncias envolvendo alterações em trechos da Bíblia, restrições ao ensino religioso e aumento da vigilância sobre igrejas clandestinas passaram a circular com mais intensidade, alimentando o debate sobre até onde o governo chinês pretende ir para subordinar a religião aos interesses do Estado.

Segundo informações divulgadas pela Hardwired Global, o Partido Comunista da China vem promovendo uma espécie de “atualização” das Escrituras Sagradas para adequá-las aos princípios socialistas defendidos pelo regime. O movimento faz parte da política conhecida como “sinicização” das religiões, estratégia adotada pelo governo para alinhar práticas religiosas à ideologia oficial chinesa.

O caso mais polêmico envolve uma versão modificada do capítulo 8 do Evangelho de João, que narra o episódio da mulher adúltera. Em uma adaptação presente em material didático chinês, Jesus não apenas deixa de impedir a execução da mulher, como passa a apedrejá-la pessoalmente após dispersar a multidão. A versão ainda atribui a Cristo a frase: “Eu também sou pecador”.

A mudança provocou indignação entre líderes cristãos e estudiosos da religião, que enxergam na alteração uma tentativa direta de enfraquecer princípios centrais do Evangelho, como misericórdia, perdão e redenção. Para críticos do regime, o episódio vai além de uma simples adaptação cultural e representa um esforço deliberado para remodelar o cristianismo sob controle estatal.

A fundadora da Hardwired Global, Tina Ramirez, afirma que o governo chinês percebeu que a repressão tradicional não conseguiu conter o crescimento da fé cristã no país. Nas últimas décadas, apesar de prisões, fechamento de igrejas e vigilância intensa, comunidades cristãs clandestinas continuaram crescendo em ritmo acelerado.

Outro nome que acompanha de perto a situação é Bob Fu, fundador da ChinaAid. Segundo ele, a repressão ganhou novos contornos nos últimos anos. Crianças passaram a enfrentar proibições mais severas para acessar conteúdo cristão, aplicativos bíblicos foram removidos de plataformas digitais chinesas e famílias cristãs têm sido pressionadas a demonstrar lealdade pública ao partido.

Relatos de perseguição também incluem estudantes obrigados a assinar documentos renunciando à própria fé diante de autoridades escolares. Igrejas domésticas conhecidas como “igrejas underground” seguem sendo alvo frequente de operações policiais e monitoramento eletrônico.

Para Todd Nettleton, da Voz dos Mártires, a motivação principal do governo é o controle absoluto da sociedade. O crescimento do cristianismo independente é visto como uma ameaça porque cria comunidades que não dependem ideologicamente do Estado.

Mesmo diante da pressão crescente, líderes cristãos chineses afirmam que a perseguição acabou produzindo um efeito contrário ao desejado pelas autoridades. Estimativas de organizações religiosas internacionais indicam que o número de cristãos no país já rivaliza ou até supera a quantidade de filiados ao Partido Comunista Chinês.

Nos bastidores das igrejas clandestinas, a percepção é de resistência silenciosa. Um pastor chinês ouvido por organizações internacionais resumiu o sentimento ao afirmar que o governo “escolheu um inimigo que não pode ser aprisionado”. A frase circulou entre comunidades cristãs como símbolo de uma fé que, apesar da censura e da vigilância, continua crescendo dentro de um dos regimes mais rígidos do planeta.

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